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Especialista debate saúde mental e políticas públicas em palestra interdisciplinar na FAACZ

Fotos: Ana Clara Sigesmundo.

A FAACZ (Faculdades Integradas de Aracruz), mantida pela Fundação São João Batista (FSJB), realizou, no dia 18 de junho, no auditório da instituição, uma palestra sobre “Políticas Públicas de Saúde Mental”, no âmbito da disciplina de “Saúde Coletiva” do 5º período do curso de Psicologia. A atividade foi ampliada também para os demais períodos do curso e contou ainda com a participação dos estudantes do curso de Enfermagem, em uma proposta interdisciplinar voltada à articulação entre teoria e prática.

O encontro teve como objetivo ampliar a compreensão dos estudantes sobre a organização das políticas públicas de saúde mental no Brasil, o funcionamento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e a dinâmica da rede de atenção nos municípios, reforçando a importância do cuidado em liberdade e da atuação em rede.

A atividade foi ministrada pelo médico psiquiatra Dr. Luan Neves Moro, graduado pela UNESC e pós‑graduado em Psiquiatria pela UVV. O profissional possui ampla experiência na área de saúde mental, com atuação em instituições de referência no Espírito Santo, tanto no setor público quanto privado. Atualmente, é diretor técnico da Clínica Moro Saúde Mental, em Aracruz (ES), além de atuar como referência técnica da RAPS dos municípios de Aracruz e Viana e da Atenção Primária à Saúde de Aracruz.

Durante a palestra, foram discutidos aspectos históricos e conceituais da psiquiatria no Brasil, com ênfase na Reforma Psiquiátrica e na luta antimanicomial. O debate abordou a construção social da “loucura” ao longo da história, as contribuições teóricas de Michel Foucault sobre o manicômio como instrumento de controle social e o conceito de “mortificação do eu”, de Erving Goffman, relacionado à perda de identidade em instituições totais.

Também foram apresentados dados e reflexões sobre o histórico dos manicômios no país, incluindo o Hospital Colônia de Barbacena como símbolo de violações de direitos humanos, além de períodos de superlotação de instituições psiquiátricas no Brasil, quando chegaram a abrigar cerca de 98 mil pessoas internadas.

Entre os pontos de destaque, esteve a crítica ao modelo hospitalocêntrico e ao financiamento baseado na ocupação de leitos, que incentivava internações prolongadas e, em muitos casos, a exclusão social de populações vulneráveis, como pessoas em sofrimento mental, população LGBTQIA+ e pessoas em situação de rua.

O processo de transformação do modelo de atenção em saúde mental também foi abordado a partir da experiência de Trieste, na Itália, conduzida por Franco Basaglia, que inspirou a Reforma Psiquiátrica brasileira. Nesse contexto, foram destacados avanços como a criação e consolidação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), além da promulgação da Lei nº 10.216/2001, que garante os direitos das pessoas com transtornos mentais e prioriza o tratamento em liberdade.

A internação psiquiátrica foi apresentada como recurso terapêutico excepcional, devendo ser adotada apenas quando estritamente necessária, com prioridade para o cuidado comunitário, territorial e a reinserção social.

Na avaliação da coordenadora do curso de Enfermagem da FAACZ e professora do curso de Psicologia, responsável pela disciplina de “Saúde Coletiva”, Sabrina Maria Batista do Nascimento, a atividade teve relevância para a formação dos estudantes: “A presença do Dr. Luan contribuiu para ampliar o debate em sala de aula sobre direitos humanos e políticas públicas em saúde mental, sendo uma oportunidade para os estudantes compreenderem a complexidade histórica e social que envolve o cuidado nessa área e a importância de uma formação crítica e humanizada”.

“A palestra foi de grande importância para os alunos de Psicologia e Enfermagem da FAACZ, pois ampliou a compreensão sobre o cuidado integral e humanizado em saúde. O conteúdo contribuiu para a formação acadêmica ao relacionar teoria e prática no contexto do SUS. Como coordenadora do curso de Enfermagem e professora da disciplina de ‘Saúde Coletiva’, destaco o impacto positivo na preparação dos estudantes para uma atuação ética e qualificada na área da saúde mental”, afirmou a educadora.

Entre os estudantes participantes, a aluna do 5º período do curso de Psicologia, Bruna Patricia Lemos Decarli Flores, ressaltou os conhecimentos adquiridos durante a atividade: “Participar da palestra do Dr. Luan Moro, sem dúvida alguma, foi uma experiência muito enriquecedora. O encontro proporcionou um momento de grande aprendizado e reflexão sobre saúde mental e políticas públicas. O conteúdo ministrado contribuiu para ampliar a compreensão sobre a importância do cuidado em liberdade, da atuação multiprofissional e do fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial”, relatou.

Já o aluno do 1º período de Enfermagem, Saulo Rui Benedito, enfatizou os aprendizados obtidos durante o encontro e as reflexões promovidas sobre a evolução da assistência em saúde mental no Brasil: “A palestra nos levou a refletir sobre a trajetória da saúde mental no país, desde o modelo manicomial até a consolidação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que representam um importante avanço no cuidado às pessoas em sofrimento psíquico. O encontro também reforçou a importância do respeito à dignidade humana, à cidadania e aos direitos de todos. Saímos do auditório com uma compreensão mais ampla sobre a necessidade de acolher e apoiar quem precisa de cuidados, um princípio que considero fundamental para a Enfermagem e para a atuação dos profissionais da saúde”, afirmou.

O psiquiatra Dr. Luan Neves Moro também ressaltou a necessidade de um olhar individualizado e humanizado no cuidado em saúde mental: “O cuidado em saúde mental precisa ser compreendido a partir da individualidade de cada paciente, respeitando sua história, seu contexto social e seus direitos. Ao longo da história, o modelo manicomial acabou por reforçar processos de exclusão e controle social, e não necessariamente de cuidado”, destacou.

Ele reforçou ainda a importância da consolidação da Reforma Psiquiátrica e da atuação em rede: “O avanço da Reforma Psiquiátrica e a consolidação da Rede de Atenção Psicossocial representam uma mudança fundamental de paradigma. O cuidado deve ocorrer, preferencialmente, em liberdade, na comunidade e com o fortalecimento dos vínculos sociais, sendo a internação um recurso excepcional”, completou.

A iniciativa reforça o compromisso da FAACZ com uma formação acadêmica crítica, interdisciplinar e alinhada às políticas públicas de saúde, promovendo a integração entre diferentes áreas do conhecimento e a aproximação dos estudantes com a realidade dos serviços de saúde mental no Espírito Santo. Ao trazer para o ambiente acadêmico um profissional com vasta experiência prática e teórica, a instituição estimula não apenas o aprendizado técnico, mas também a reflexão ética e o protagonismo dos futuros profissionais na construção de uma sociedade mais justa e inclusiva.

Texto: Alessandro Bitti
E-mail: comunicacao@fsjb.edu.br
alessandro@fsjb.edu.br

Data da publicação: 25/06/2026

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